Flores insuficientes
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Já falei sobre o tema numa crônica, mas infelizmente o assunto continua mais atual que nunca. Notícias recentes sobre violência contra mulheres dão uma boa idéia da extensão, permanência e perversidade do hábito: a agressão do namorado (?) à atriz Luana Piovani e sua camareira no Rio de Janeiro; o estupro de uma jovem em Joaçaba, Santa Catarina, cometido por vários colegas (?) durante uma festinha; os assassinatos em série - com violência sexual - contra meninas pequenas em diferentes cidades do Paraná; o tiro na cabeça da adolescente Eloá disparado pelo ex-namorado (?) em Santo André.
Há algum tempo rapazes de classe média no Rio de Janeiro espancaram uma doméstica num ponto de ônibus. Alegaram que a confundiram com uma prostituta. Como se o fato de ser prostituta justificasse que uma mulher levasse uma surra de um bando de marmanjos mimados, insensíveis e irresponsáveis. Os casos são incontáveis e cotidianos. E variam quanto ao grau e tipo de violência. Às vezes velada, outras explícita. Mas sempre presente.
Antes mesmo que Eva fosse criada pelos homens que escreveram a Bíblia, mulheres vêm sendo desrespeitadas sistematicamente em todas as partes do planeta, sem exceção. Quando se inventou a história de Adão e Eva, ela - é claro- foi a escolhida para simbolizar o pecado, a luxúria, a curiosidade, o questionamento, a insubordinação e todos os atributos que ameaçam o poder dos homens. Passando pelas mulheres de clitóris castrados, pelas que não podem mostrar o rosto, o corpo, os olhos, a boca e os cabelos, pelas que não podem cantar e dançar, estudar ou trabalhar, pelas que não podem ouvir música ou descansar, pensar ou agir, homens sempre culparam as mulheres por alguma coisa. Qualquer coisa.
Os motivos são incontáveis. Ora são adúlteras. Ora alegres. Insensíveis. Infiéis. Insolentes. Ingratas. Indignas. Irritantes. Inteligentes. Indiferentes. Dissimuladas. Estúpidas. Curiosas. Perigosas. Perversas. Fatais. Felizes. Frígidas. Vagabundas. Ninfomaníacas. Sádicas. Traiçoeiras. Tristes. Apaixonantes. Belas, feias, gordas, magras, melancólicas, não importa. Muitas vezes não há motivo algum. Apanham por um hábito perverso, uma tradição imemorial dos grandes machos dominadores. Se cada um de nós, homens, enviasse uma flor a uma mulher por violência cometida contra elas, não haveria flores suficientes no mundo.
| CD......Lady Sings the Blues, de Billie Holliday, uma mulher que sofreu por todas as mulheres do mundo e nos encanta e comove com sua dor. |






