COLUNISTAS

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Livros

Bellini e a Esfinge

Tony Bellotto
Romance policial
1995
Companhia das Letras Adaptado para o cinema pelo diretor Roberto Santucci Filho.

Bellini e o Demônio

Tony Bellotto
Romance policial
1997
Companhia das Letras

BR-163 - Duas histórias na estrada

Tony Bellotto
Romance
2001
Companhia das Letras

Bellini e os Espíritos

Tony Bellotto
Romance policial
2005
Companhia das Letras

Os Insones

Tony Bellotto
Romance
2007
Companhia das Letras
Quinta-feira, 20 de Novembro de 2008

Flores insuficientes

Já falei sobre o tema numa crônica, mas infelizmente o assunto continua mais atual que nunca. Notícias recentes sobre violência contra mulheres dão uma boa idéia da extensão, permanência e perversidade do hábito: a agressão do namorado (?) à atriz Luana Piovani e sua camareira no Rio de Janeiro; o estupro de uma jovem em Joaçaba, Santa Catarina, cometido por vários colegas (?) durante uma festinha; os assassinatos em série - com violência sexual - contra meninas pequenas em diferentes cidades do Paraná; o tiro na cabeça da adolescente Eloá disparado pelo ex-namorado (?) em Santo André.

Há algum tempo rapazes de classe média no Rio de Janeiro espancaram uma doméstica num ponto de ônibus. Alegaram que a confundiram com uma prostituta. Como se o fato de ser prostituta justificasse que uma mulher levasse uma surra de um bando de marmanjos mimados, insensíveis e irresponsáveis. Os casos são incontáveis e cotidianos. E variam quanto ao grau e tipo de violência. Às vezes velada, outras explícita. Mas sempre presente.

Antes mesmo que Eva fosse criada pelos homens que escreveram a Bíblia, mulheres vêm sendo desrespeitadas sistematicamente em todas as partes do planeta, sem exceção. Quando se inventou a história de Adão e Eva, ela - é claro- foi a escolhida para simbolizar o pecado, a luxúria, a curiosidade, o questionamento, a insubordinação e todos os atributos que ameaçam o poder dos homens. Passando pelas mulheres de clitóris castrados, pelas que não podem mostrar o rosto, o corpo, os olhos, a boca e os cabelos, pelas que não podem cantar e dançar, estudar ou trabalhar, pelas que não podem ouvir música ou descansar, pensar ou agir, homens sempre culparam as mulheres por alguma coisa. Qualquer coisa.

Os motivos são incontáveis. Ora são adúlteras. Ora alegres. Insensíveis. Infiéis. Insolentes. Ingratas. Indignas. Irritantes. Inteligentes. Indiferentes. Dissimuladas. Estúpidas. Curiosas. Perigosas. Perversas. Fatais. Felizes. Frígidas. Vagabundas. Ninfomaníacas. Sádicas. Traiçoeiras. Tristes. Apaixonantes. Belas, feias, gordas, magras, melancólicas, não importa. Muitas vezes não há motivo algum. Apanham por um hábito perverso, uma tradição imemorial dos grandes machos dominadores. Se cada um de nós, homens, enviasse uma flor a uma mulher por violência cometida contra elas, não haveria flores suficientes no mundo.

CD...

...Lady Sings the Blues, de Billie Holliday, uma mulher que sofreu por todas as mulheres do mundo e nos encanta e comove com sua dor.
Segunda-feira, 17 de Novembro de 2008

O escritório tomado

Julio Cortázar, o grande escritor argentino, escreveu em 1946 um conto intitulado A Casa Tomada. No conto, um casal de irmãos percebe sua casa ser invadida aos poucos, cômodo por cômodo, por invasores misteriosos. Os irmãos vão fechando as portas dos cômodos à medida que são invadidos, até abandonarem pela porta da frente a casa tomada.

Já se fez uma analogia entre o conto e a crise financeira que assola o mundo atualmente, os invasores misteriosos representando as convulsões surpreendentes e inesperadas dos mercados em crise e seus efeitos tenebrosos sobre nossas vidinhas normais. Experimento em meu escritório invasão semelhante. Mas aqui, onde escrevo, os invasores não são entidades misteriosas, alegóricas ou financeiras. São simplesmente livros, discos, revistas, guitarras e violões que se aglomeram num pequeno cubículo.

Está cada vez mais difícil transpor os três metros que separam a porta do escritório de minha mesa de trabalho. Tenho de atravessar, feito Moisés, um mar agitado de palavras e papel. Hoje mesmo, tropecei num Raymond Chandler depois de escorregar em Allen Ginsberg e dar de cara com Slash. Outro dia me embrenhei num emaranhado de cordas ao esbarrar numa guitarra Fender de doze cordas.

Como um matuto, tive de abrir a faca meu caminho entre as cordas de aço já meio enferrujadas. Vinha de um passeio pelas paisagens de Corto Maltese e dei uma canelada num Aurélio. Ou era um Houaiss? Minha canela ficou roxa. Mas não pensem que minha batalha se resume a me esgueirar entre escritores, músicos, poetas, palavras e sons.

Na maior parte das vezes tento desviar de contas de cartões de crédito, convites para estréias, conta do celular, folhetos de importadoras de vinho, calendários cheios de datas marcadas e outras minas terrestres de alto teor de destruição. Meu escritório lembra a casa do Snoopy: muito pequena, mas de onde ele tirava desde telas gigantes de Rembrandt até patinetes motorizados. Outro dia, ao trombar com Jorge Luis Borges numa das estantes, ele me alertou: Abra o olho, rapaz. Arrume essa bagunça!

Livro...

...aliás desaparecido de meu escritório, Bestiário, de Cortázar.
Quinta-feira, 13 de Novembro de 2008

30% a mais e 5 graus acima

As notícias não são boas para os humanos: o planeta já não dá conta de suprir nossas necessidades e a temperatura no Ártico está subindo assustadoramente. Passamos os últimos dias nos entretendo com Barak Obama e a montanha-russa do mercado financeiro e nem nos demos conta de que um problema muito complicado está se agigantando no horizonte. A idéia de que temos um débito ambiental de 30% na capacidade da Terra em nos fornecer matéria prima de forma sustentável é alarmante.

Segundo estudos, em algum momento no final dos anos 1980 o planeta deixou de ser suficiente para produzir bens e serviços que atendam proporcionalmente à população humana. Iniciamos então uma perigosa bolha de crédito ambiental que fatalmente irá explodir algum dia. É claro que China e Estados Unidos - que juntos consomem 21% de toda a biocapacidade do planeta - são os maiores devedores dessa linha de crédito macabra, mas na hora de pagar a conta - alguma dúvida? - vai sobrar para todo mundo.

Some-se a isso a conclusão assustadora das pesquisas da Agência Americana de Oceanos e Atmosfera, que indicam que a temperatura no Ártico está cinco graus acima da média, e temos o quadro perfeito de um apocalipse que se aproxima a passos largos. É preciso começar a agir imediatamente. Controle de natalidade, mudanças na produção econômica e novos estilos de vida serão necessários. Muita coragem, bom senso, pesquisa, revisão de conceitos, criatividade e bicicletas.

Como afirma o cientista político e economista alemão Elmar Altvater, estudioso das relações entre economia e ecologia: "Se continuarmos com estilo de vida com base no carro, se nossa arquitetura não se adaptar ao clima de cada região e se não reduzirmos o uso de energia, nosso futuro não será bom. São mudanças que se fazem ao longo de 30 anos. Mas só depende de nós. Nós somos os arquitetos do nosso futuro".

Livro...

...A Vingança De Gaia, em que James Lovelock - um dos mais lúcidos cientistas vivos -, nos apresenta um quadro realista da situação do planeta e das alternativas para sairmos da enrascada em que nos metemos.
Segunda-feira, 10 de Novembro de 2008

Padres e freiras distribuem camisinhas


Quem me conhece sabe que meus pontos de vista situam-se diametralmente opostos aos da religião e religiosos. Por exemplo: sou a favor da legalização do aborto, da união legal entre pessoas do mesmo sexo, das pesquisas com células-tronco, do uso de preservativos, da liberdade de escolha e da lei que criminaliza a homofobia. Sou contra o ensino de religião em escolas públicas, contra quem duvida da ciência em nome de um tal criacionismo e gostaria que notas de real não viessem estampadas com a frase deus seja louvado.

Em compensação, sou a favor da liberdade de expressão e de culto, respeito todas as religiões e crenças, e acho que todo mundo tem direito de acreditar e louvar quem ou o que quiser, assim como de não acreditar e não louvar igualmente. Simpatizo e concordo com os princípios filosóficos do budismo e do cristianismo e reconheço que a Bíblia é uma das obras literárias mais importantes da humanidade.

Sou a favor da liberdade, da democracia, da filosofia, da ciência, do diálogo, da dúvida e dos direitos individuais. Sou contra dogmas, fundamentalismos e certezas absolutas. Tenho a convicção de que religião não deve se misturar com política nem educação, sob o risco de se tornar doutrinação. É por isso que vi com bons olhos a iniciativa de um grupo de padres e freiras brasileiros que se dispôs a distribuir camisinhas para a população vulnerável e portadores do vírus HIV, à revelia da orientação do papa, que condena o uso de preservativos, sexo fora do casamento e sexo que não seja com fins estritamente reprodutivos.

Esses padres e freiras dão um bom exemplo de como a religião pode ser útil nos dias de hoje. O padre Valeriano Paltoni, do Instituo dos Missionários da Consolata, de São Paulo, afirma: ".... a postura de uma igreja ou religião, qualquer que seja, não pode prevalecer sobre o bom senso".

Livro...

...O Homem-Deus, de Luc Ferry, filósofo francês, que já foi ministro da educação na França. Ferry analisa o sentido da vida à luz da filosofia.
Quinta-feira, 06 de Novembro de 2008

Laika

Laika Rodrigues gosta de dizer que tem nome de cachorra. Laika é a cadela mais famosa do mundo, depois da Lassie. Rin-tin-tin era macho, não conta. Laika foi o primeiro ser vivo terrestre a viajar no espaço. A cadela russa, a bordo do Sputnik 2, realizou o primeiro vôo espacial tripulado da história em novembro de 1957. Laika morreu algumas horas após o lançamento, aterrorizada com o superaquecimento da cabine do Sputnik. Mas Laika Rodrigues está bem viva, vendendo artesanato no calçadão da praia de Ipanema.

Ganhou o nome da cadela famosa porque nasceu em 1957, alguns dias após o lançamento do Sputnik. O pai de Laika, Genival, sapateiro de Recife, era entusiasta das viagens espaciais. Os irmãos de Laika, mais jovens, ganharam os nomes de Yuri (em homenagem ao russo Yuri Gagarin, o primeiro astronauta a ir para o espaço e orbitar a Terra), e Apolo (em homenagem aos foguetes americanos que acabariam levando o homem até a Lua).

Apesar de reconhecer que os irmãos tiveram mais sorte nos nomes - Yuri é um nome russo relativamente comum e Apolo o nome do deus grego da beleza e harmonia -, só Laika herdou do pai o gosto por viagens espaciais. Diz que na infância sonhava ser astronauta. Depois, adolescente, desejou pilotar aviões, mas não conseguiu passar nos exames para ingressar na Aeronáutica.

Tentou, nos anos setenta, a carreira de aeromoça, mas não deu certo. Acabou embarcando na onda hippie e aprendeu a fazer anéis, colares e pulseiras numa comunidade em Porto de Galinhas, em Pernambuco, quando aquele lugar ainda não era um paraíso turístico. Era só um paraíso. De lá foi para Canoa Quebrada, no Ceará. De Canoa Quebrada migrou para Búzios e, finalmente, Rio.

Continua a viver da venda de seus anéis e pulseiras. Suas obras têm como tema estrelas, luas, planetas, cometas, foguetes e aviões. E sempre que um avião ou helicóptero cruza o céu de Ipanema, Laika se distrai da conversa e olha para cima.

DVD...

...Os Eleitos, de Philip Kaufmann, baseado no livro de Tom Wolfe, narra o início da corrida espacial norte-americana.

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